25 junho 2007

Princesas Ribeirinhas

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Há mais de 500 anos, Portugal soltou amarras e descobriu o mundo, fazendo-se ao mar.
Hoje, os portugueses amarram-se à terra, redescobrem os rios, fazendo-se amar.

Lisboa, Porto e Setúbal, são as maiores cidades do litoral português, mas bebem a sua identidade dos rios que molham os seus pés, Tejo, Douro e Sado.
Cidades nervosas, que buliciam em terra. O mar está ao largo, os rios só agora de novo elevados à sua condição de sempre, fontes de vida e bem-estar.

Depois, num ritmo abençoadamente mais contido, dezenas de outras cidades mais pequenas, vilas e aldeias de pescadores, deixam correr os dias, fruindo compassadamente tradições agitadas pela urgência do agora e do amanhã.

A muito bela e sedutora Alcochete é a princesa das princesas ribeirinhas, visitada amiúde com a miúda, como aconteceu no sábado.
No domingo, espreitámos Arrentela e Seixal.

Em todas, a de sempre e as de agora, o mesmo doce enlevo feito de tempo deliciosamente mastigado em esplanadas voltadas para o Tejo, observando pescadores de pele tisnada em barcos de cores garridas, em dia de recuperação de redes, de esforço, de ânimo para prosseguir no dia seguinte, uma faina de incertezas, de mágoas e ressentimentos, mas também de fé e fibra inquebráveis.
Garças, flamingos e gaivotas, pontões de madeira, moinhos de maré e maresia dilatando as narinas de quem, habituado à cidade, precisa de momentos assim.

Em Arrentela, se seguir a seta que indica a Igreja de Nosssa Senhora da Conceição, vai encontrar aí um miradouro que oferece uma desconhecida vista sobre um Tejo inesperadamente verde e negro, lismos e lodo, esperança e melancolia, traços que que tecem a impressão digital de um Portugal ad eternum.
Do miradouro avista-se a Ponte 25 de Abril, o Cristo-Rei, Almada e Lisboa na outra margem.
Sem margem para reticências, a memória e as saudades evocam, logo ali, Alcácer do Sal e o Sado, Coimbra e o Mondego, Tavira e o Gilão e, rainha entre princesas, Constância do Ribatejo. Talvez a mais bela vila ribeirinha de Portugal.

Antes que o calor torre a sua imaginação e o empurre em manada para a praia, entregue-se a uma tarde ribeirinha.
Passeie de mão dada ou mesmo sozinho, mordisque um gelado numa esplanada, petisque uns caracóis, beba umas imperiais, inspire e inspire-se.
Tal como um cafezinho, a vida é curta e bebe-se num instante.

9 comentários:

Mad disse...

Esqueceste-te de Valada do Ribatejo, uma princesinha muito pequenina, com uma marina também muito pequenina, duas, talvez três casas lindas, três cafés e muitos bancos de jardim. Um amor de terra, onde eu adorava ir tomar um café nos fins de semana ensolarados de inverno.

N.M disse...

Margem Sul...RULA!!!Adoro is ao Seixal, tenho lá bons amigos.E depois a margem sul tem sitios lindissimos!!!

Anónimo disse...

Nao era essa a margem-deserto?

nf

Anónimo disse...

NF, o JPC encontrou uns oasis no maior deserto do Mundo ... a Margem Sul do Tejo. Eu comprovo que o Ministro Lino tem toda a razão em dizer o que diz sobre este nosso deserto. Todos os dias de manhã ao chegar às portagens da Vasco da Gama é-me pedido para mudar de roupa e guardar o camelo num estábulo. É-me entregue roupa ocidental, a qual visto para me deixarem entrar em Lx sem que pensem que sou algum taliban ... no regresso a casa, dispo a roupa incomoda dos ocidentais e visto um confortável "Thobe" e não me esqueço do "Shimagh" para proteger a cabeça do Sol ... Deixo o veiculo de 4 rodas entregue as autoridades fronteiriças, dou 2 festas ao camelo e digo-lhe "leva-me para o oásis do Pinhal Novo".

Ahhh, a vida é bela !!

Grettir

FL disse...

JP,
Este texto merece um comentário à séria... Do tipo: "Ena, JP tu escreves que é uma coisa! Até consigo visualizar...! Muito bom mesmo!!"

Mas sabes que eu gosto de abardinar. Adorei o "amiúde com a miúda" e o "lismos e lodo, esperança e melancolia" então, nem se fala...

Agora a sério: gostei imenso!
Beijos

João Paulo Cardoso disse...

Mad:

Valada do Ribatejo.
Pela descrição, parece feita à minha medida.

Fica anexada à imensa lista "Um Dia Tenho Que..."

Beijos.

João Paulo Cardoso disse...

N.M:

Ainda bem que a Margem Sul é muito mais para além de cidades-dormitório habitadas por andróides escravizados.

Um abraço.

João Paulo Cardoso disse...

n.f. e grettir:

Daqui somos, daqui ninguém nos tira!!

João Paulo Cardoso disse...

Flora:

Tal como escrevi, é tudo uma questão de inspiração: cheiros, paisagens, gostos e sabores e claro, a musa inspiradora que me acompanha.

Beijos.

Tenho pena que a Miosotis não venha aqui ler esta e outras coisas.
Esta tasquinha chamada "O Eldorado" detesta perder fregueses...