08 outubro 2007

Era uma vez no México

O Eldorado - Edição nº167

Está um calor do caraças na fronteira mexicana.
Do outro lado do arame farpado, guardado por guardas armados, está o sonho, a terra prometida do Uncle Sam.
Uma frágil figura vislumbra-se ao longe, aproximando-se, de bicicleta, pelo velho caminho de terra batida, ladeado de cactos.

Pablo está cansado, tem sede, mas não quebra facilmente.
Aproxima-se dos façanhudos guardas para ser controlado. Está calmo, mas de qualquer maneira detesta ser apalpado por gajos fardados.
Um polícia negro, que media seguramente mais de dois metros de altura, manda-o parar.

- Alto! Quem és tu e o que trazes nessa pesada mochila às costas, seu contrabandista do país das malaguetas?

Pablo, não respondeu.
Saltou da bicicleta, livrou os ombros da mochila pesada e entregou-a à autoridade.
O polícia abre a mochila, vira-a ao contrário e despeja o conteúdo no chão.
Areia. Um monte de areia.

- O que é isto?!
- Areia, señor.
- Areia, para quê?
- Para levar a um primo meu, do lado de lá da fronteira.
- Queres que eu acredite que não fazes contrabando, e que só vais entregar areia ao teu primo?
Tomas-me por parvo?

Os guardas riram na cara de Pablo, retiveram-no durante dois dias numa cela de um edifício antigo e mandaram analisar a suposta areia.
Mas as análises não acusaram nada para além de areia e os guardas não tiveram outro remédio se não voltar a encher a mochila do pobre Pablo, que foi libertado e lá seguiu viagem para os Estados Unidos.

Uma semana mais tarde, ainda e sempre com um calor do caraças, uma frágil figura em cima de uma bicicleta, aproxima-se da fronteira, ziguezagueando com dificuldade pelo velho caminho de terra batida e os cactos e tudo o que escrevi lá em cima, que eu não estou para estar aqui a repetir-me.
Era Pablo.

- Outra vez?? O que é que trazes aí?
- Areia, señor.

A mochila foi despejada, Pablo retido, a areia analisada e tudo como dantes.

A cena passou a repetir-se três vezes por semana.
O Pablo aparecia de bicicleta com uma mochila cheia de areia, era detido pelos guardas, mas saía sempre a caminho dos Estados Unidos.

Passaram-se vinte anos.
O guarda Phil Scott, no primeiro Verão da sua reforma, empreende uma trip revivalista até ao outro lado da fronteira.
Estava um calor do caraças e Phil dirige-se a uma velha cantina para refrescar a goela com uma Corona, a cerveja mais conhecida do México.
Lá dentro, atarracado debaixo de um sombrero, com um copo quase vazio à sua frente, reconhece Pablo, o mexicano do bigode farfalhudo que, três vezes por semana, dizia levar areia a um primo nos States.

Phil Scott sentou-se de frente para o mexicano, sorriu desdenhosamente e confrontou Pablo com fantasmas de outrora.

- Lembras-te de mim, velho maluco?
- Si, señor.
- Ouve lá, minha espécie de lombriga vermelha: Eu sei que andavas a tramar alguma naquele tempo! Houve noites que não pregava o olho a pensar nas tuas tramóias!! Tu andavas a contrabandear, tenho quase a certeza, cara de cu de armadillo!!
Diz-me lá, depois destes anos todos, o que é que andavas a contrabandear?

Pablo, calmamente, bebe o resto da sua tequilla, vira-se para o enorme polícia negro e responde friamente:

- Bicicletas, señor.


DEDICADO A TODAS AS MINORIAS POLÍTICAS, ANTI-TOTALITARISTAS E REVOLUCIONÁRIOS, EM ESPECIAL CHE GUEVARA, EXECUTADO HÁ 40 ANOS, A 9 DE OUTUBRO DE 1967.

7 comentários:

Mad disse...

Absolutamente memorável, inesperado e quiçá um bocadinho poético. Cá está ele! (o lado sentimentalão... vá, diz lá que não!).

Insolente disse...

Extraordinário. Ainda que se ele tivesse feito tudo da mesma forma mas com ferraris se calhar tinha feito maior fortuna e a contar com a azelhice americana se calhar até passava despercebido numa biciclete de quatro rodas encarnada.

Quanto ao meu texto lá na minha barraca pouco tenho a dizer, se existe um espaço onde posso com certeza dizer o que me apetecer é ali portanto digo-o, e achei piada ao escrever aquilo não tanto pela qualidade humorística do texto mas sim pelas reacções de antipatia que poderá causar. Os atrasados mentais não me vão levar a mal. Se aqui á uns tempo alguem me acusou de quase passar dos limites quando comentei a morte do pavarotti, então vai dar saltinhos com comixões se ler este. ;-)

Ora então um grande bem haja

Susana disse...

Giro é pensar que se escrevesses noutro lado qualquer com outro nome, eu reconheceria esta escrita. Digo eu... :)

Beijos

João Paulo Cardoso disse...

Mad:
Este texto não tem qualquer vestígio do meu lado "sentimentalão".

O que nele se nota é uma irreprimível saudade (e vontade) de comer um bom chili escandalosamente picante.

Taras e manias aqui do menino...

Beijos.

João Paulo Cardoso disse...

Insolente:

O texto de que o nosso amigo "insolente" fala, está no blog dele e, aviso desde já, não é de fácil digestão.

Mas vão até lá, leiam e condescendam na medida do possível, porque o homem tem talento.

Um abraço e um grande bem haja para o "insolente".

João Paulo Cardoso disse...

Susana:
Aqui está um belo comentário para o meu ego.
Muito obrigado, Susana.

Beijos.

Susana disse...

Oh, sei como é. Também já o fizeste tão bem. Mas este não foi em retribuição, não faço favores. :)

Beijos