12 outubro 2007

Lelo Marmelo

O Eldorado - Edição nº 169

Um dos meus sonhos sempre foi - e continua a ser- escrever para televisão.
Poderiam ser séries de humor, novelas ou 'slogans' para a Frize.
O sonho ainda não se realizou, mas onde houver uma caneta no chão, haverá uma frase minha na parede.

Se eu escrevesse, por exemplo, uma novela e um canal de televisão a transmitisse, podem crer que o país pararia vítima de um espasmo colectivo, com direito a ressacas monumentais e cantos gregorianos, muito corrupio do pessoal do INEM por causa dos internamentos em série e, inclusive, seria declarado o Estado de Sítio por sua Excelência, o Presidente da República, Aníbal, a Caveira.

Já tenho o argumento desfraldado ao vento no vazio do meu cérebro, onde os neurónios (cinco ao todo) vestem casaquinhos de lã, mesmo quando os Outonos insistem que são uma espécie de Verão.
Então, a minha novela seria mais ou menos assim:


Um jovem cigano, daqueles mesmo ranhosos e a cheirar a cigano, vai à procura dos verdadeiros pais. Ele empreende uma inominável cruzada em demanda dos seus progenitores (frase coligida com a ajuda de um dicionário).

Lelo deixa Mértola numa terça-feira bem cedinho, ainda não estava a dar a "Praça da Alegria" e parte rumo a Lisboa, seguindo para a zona fina da Lapa, seguindo as pistas que reuníu à boa maneira CSI (Cigano Super Inteligente).
É assim que deixa a apanha de bolotas debaixo de um sol escaldante, para abraçar uma vida como prostituto de luxo, embalado por noites de luar e champanhe.

Lelo acaba por se apaixonar por uma rapariga enfezadita que trabalha como caixa de um Minipreço na zona pobre da cidade.
Mais tarde, ele vem a saber que ela é afinal sua irmã e sofre de Hepatite em último grau, mas ainda assim eles têm um caso, fazem amor e nasce um bezerro com três cabeças.

Entretanto, os pais de Lelo descobrem que ele está por perto a farejar a sua identidade e, por isso, escondem a coca no serviço Vista Alegre, não vá Lelo farejá-la também e a coca está cara, custa os olhos dela, da cara, e é melhor eu pôr um ponto final nesta frase tipo Saramago-com-os-copos, ou vossemecês acabam por desistir de ler o resto da novela e ainda vão acontecer momentos giros, ó se vão.

Nisto, o meio-irmão de Lelo (que se chama Martim e nasceu de um caso entre a sua mãe e um adido cultural húngaro), resolve assumir o relacionamento proibido com um ministro do governo Sócrates, facto que fará capa, centrais e colunas laterais no "24 Horas", no "Correio da Manhã" e no "Avante". Todos eles com cupões que, após recortados pelo picotado, dão direito a uma baixela de prata.

Em poucos dias, Lelo descobre onde os pais moram e está tudo a postos para o grande reencontro.
O cigano herói desta história alucinada e genial, já que foi escrita com o auxílio de alucinogéneos, não faz por menos e prepara a sua aparição numa Festa da Espuma, organizada por uma 'socialite' tão enxertada de 'botox' e silicone que quando ria levantava uma perna.

Esplendor e decadência dão as mãos num imenso 'hall' de um antigo convento, onde moram os pais de Lelo, mas nem Deus nem o Diabo imaginariam o que sucederia a seguir.

Por volta da meia-noite, qual cinderelo voltado do avesso, Lelo faz a sua aparição triunfal, escoltado por uma legião de jornalistas da imprensa cor de rosa previamente avisados para a bronca latente, embora outros só ali fossem por causa dos decotes e dos croquetes.

Uma vaga perplexa de sussurros ribomba pela sala iluminada pelos candelabros de cristal que brilham no cabelo oleoso de Lelo Marmelo.
Estava de volta o renegado, assumindo a relação com a irmã e apresentando à nata da sociedade, o neto dos Viscondes de Almeirim:
Alexandre Dengoso Ruminante, o bezerro das três cabeças!

Fotógrafos frenéticos disparam 'flashes'. "Tias" e panascas do 'jet-set', de plumas e lantejoulas, desmaiam em leque como se tivessem sido escolhidos por engano para "O Lago dos Cisnes"; outras, com decotes mais perigosos que a Boca do Inferno, permanecem de pé em intermináveis risos e cochichos, molhados com licores de menta e baunilha; os seguranças privados dos Viscondes de Almeirim, antes Balbina e Anacleto Marmelo, sentam-se para assistir à queda do império; há quem ande pelo chão à porrada e outros querem matar Lelo logo ali, mas aparece o Scolari "para defendê o minino" repetindo vezes sem conta que "pimbolim é matraquilhos".

A apoteose acontece quando Dengoso, o filho de Lelo e neto dos Viscondes, rebenta com a trela e, para deleite do comissário da Judiciária que já andava desconfiado, vai que nem um tiro direito ao serviço de chá Vista Alegre, espalhando coca pela cabeça da grã-finagem, como se fosse possidónia e genuína caspa, em elaborados penteados de gente falsa.

Tudo o mais que escrevesse sobre o que aconteceu a seguir a isto é tão repugnante que lhes revolveria as tripas e eu não quero ter nada a ver com sanitas entupidas.
Acrescentarei apenas mais cinco singelas palavras:

"E viveram infelizes para sempre."

8 comentários:

Paulo Cristo disse...

Caro amigo,


nota-se que o peyote anda a dar os seus frutos, e esses, bem que prematuros são, pois no lugar do ciclo de trinta anos habitual deste cacto, assistimos ao brotar da lilás flor da loucura quase semanalmente em suaves bebedeiras virtuais.

Susana disse...

Estava a ler-te e a pensar como aquela gente podia estar toda na mesma sala com o Lelo Marmelo. Tinhas dito que cheirava a cigano, pois se era cigano... E o cheiro a cigano é só para valentões aguentarem. Valente jet-set!
Felizes para sempre com um dengoso de três cabeças?

Faltei à estreia da novela com muita pena minha, mas deixei a gravar. ;)

Beijos

ana vidal disse...

Lelo Marmelo Cinderelo ... isto não é novela, é novelo!

À espera, ansiosamente, da sequela (ou melhor, do sequelo):
"Lelo Marmelo II - O regresso do Visconde Dengoso"

Bjs
ana

Visão Caleidoscópica disse...

Então e onde encaixas tu a faca e o alguidar?
Hummm...
Beijos.
Vai um tchim-tchim?
Até mais....

João Paulo Cardoso disse...

Paulo Cristo:
Depois do teu comentário, acho que ficou evidente que quem anda à cata de cactos não sou eu, mas está bem...

Mais uma vez ( se o sms não se transviou...) parabenizo-te por mais um aniversário e continuação de bom trabalho na pedreira que, literalmente, carregas às costas.

Dá cabo disso, pá.

Um abraço.

João Paulo Cardoso disse...

Susana:

Acontece que Lelo jamais apreceria numa festa jet-setiana a cheirar a cigano, se bem que nada tenho contra esse almiscarado odor desse nobre povo tão valente que só ataca em manada.

Mas se o Lelo foi lavadinho e cheiroso,o memso não se pôde dizer do Dengoso, que tresandava a cabeças de peixe podre.

Beijos.

João Paulo Cardoso disse...

Ana Vidal:

"Lelo Marmelo II - O regresso do Visconde Dengoso"??

Arghh!!!

Vamos deixar o bicho crescer, ir para a escola e quiçá cumprir o serviço militar como voluntário na Bósnia.
E se daqui a vinte anos ele ainda estiver vivo, talvez se volte a falar nele...

Beijos.

João Paulo Cardoso disse...

Maria:

Pois... pelos vistos esqueci-me de falar da faca e do alguidar.

É uma falha imperdoável, eu sei, mas remeto toda e qualquer responsabilidade para o aderecista da história que, aliás, está despedido.

Beijos.