06 agosto 2007

Arroz com Atum

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Aquele bloco de notas quadriculado da série Papyrus, da Ambar, andava aos caídos lá por casa.
Por vezes alguém rabiscava nele qualquer coisa, arrancava-lhe uma folha e deixava-o de novo entregue a si mesmo.
Até que peguei nele - quase 20 anos depois do que deveria ter feito com um da sua espécie -, desenhei-lhe uma frigideira fumegante e escrevi em letras toscas "First Time Cooking".
Tinha começado uma bela aventura.

Aos 36 anos não sei cozinhar.
Não será o mais terrível dos handicaps, mas era uma lacuna que tardava em ser dizimada pelo assombroso acto de coragem que representa vestir um avental, respirar fundo e rezar aos deuses para não enviar a cozinha pelos ares, para bem junto deles.

"First Time Cooking".
Arroz Branco numa página. Ovos Mexidos na página seguinte.
O bloco quadriculado tem só duas páginas, mas já é tão acarinhado por mim como a Bíblia lá de casa. E assim acontece por cinco razões:

- Por vergonha: Bolas, já estava mais que na altura de aprender a cozinhar.

- Por necessidade: Estou há 15 dias sozinho em casa e não posso estar sempre a ir comer fora, ou a trazer comida feita para casa. E preciso alimentar a barrigona.

- Por crescimento pessoal: Se muitos aprendem a cozinhar, porque não aprenderia eu?

- Por curiosidade: Depois de frustradas tentativas há alguns anos, conseguiria fazer alguma coisa comestível?

- Por amor: Motivado pela mulher que amo, tudo parece mais simples.

E foi com todo o carinho, paciência e amor da minha namorada, que numa noite de quarta-feira, seguindo as suas indicações, comecei a escrever "o livro" que jamais publicarei. Por pudor e porque é tão estúpido como um rinoceronte de mini-saia cor de rosa.
"First Time Cooking".

E chegou o dia.
Propunha-me fazer algo que uma criança de cinco anos conseguisse fazer e não me refiro a tirar macacos do nariz e a colá-los debaixo do tampo da mesa.
Arroz branco com atum.
Eu sei que para a maior parte de vós, isto é tão simples como beber um copo de água, mas para mim é algo susceptível de eriçar os pêlos das costas e causar formigueiro na planta dos pés. Por isso benzi a cozinha e chorei agarrado a uma cebola, por não ter meia dúzia de cozinheiros às minhas ordens.

As lágrimas, por causa da cebola que picava enquanto sonhava ser Maria Antonieta, acordaram-me do devaneio pantagruélico. Depois piquei um alho, cobri o fundo de um tacho com azeite, coloquei um pouquinho de sal e pus ao lume.
"Olha, até está parecido com o que tenho visto na televisão..."

As indicações seguintes falavam em deixar azeite, alho e cebola ao lume, até que esta ficasse "translúcida".
Nem branca, nem loura, nem preta.
"Translúcida".
Como medir a "translucidez" de uma cebola? Será necessário o auxílio de críticos de arte?
Perguntar-se-á à própria cebola, enquanto é a vez desta chorar, em crepitante agonia?

" - Ouve lá, peço desculpa de te estar a magoar, eu sei que 'tá a ficar um calorzinho insuportável aí dentro e não sei que mais, mas essa corzinha em ti é assim a modos que translúcida, não é? Vá lá, ajuda-me nisto! Estás translúcida ou não?"

Como quem cala consente, afoguei-a com duas canequinhas de água e coloquei em lume alto.
Lavei o arroz e, quando a água estava a ferver, juntei uma canequinha de arroz agulha.
Baixei o lume, tapei a panela, voltei a benzer a cozinha e esperei os 12, 13 minutos mais longos da minha vida na cozinha.

Estava na hora.
Imaginava o arroz mais preto que o Pelé a rebolar nu numa mina de carvão.
A cebola certamente teria se vingado, comido o fundo da panela, fugido e estaria a preparar uma revolta de frutas e legumes.
Se fosse um desses meninos gays que falam da vida social na tv, talvez até gostasse de ter bananas e courgettes a investirem militarmente sobre mim. Como não sou, tive medo e afastei a ideia de tão inusitado motim.

Levantei a panela. Ao longe soavam rufos de tambores, para alimentar o suspense enquanto eu ainda morria de fome.
"Olha! Continua parecido com aquilo que vejo na televisão!"

Pus metade do arroz num prato, juntei o conteúdo de duas latas de atum, fechei os olhos, abri a boca e provei.
"Olha, sabe bem! Quem diria?!"

Não foi das melhores refeições que comi na vida, mas tirando bifes esturricados com batatas fritas e ovos dizimados, digo, estrelados, aquela tinha sido a minha primeira experiência com os tachos.
E tinha corrido bem.
O arroz estava bom. E para a próxima ainda vai estar melhor.

Quero agradecer à minha musa inspiradora, ao arroz Cigala e às seguintes entidades:
Santa Rita de Cássia, Odin, São Cristóvão, Santa Bárbara, Maria de Lurdes Modesto, Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, Iemanjá e Nossa Senhora de Fátima.

7 comentários:

Mad disse...

Repetindo o meu comentário para ti, mas no blog da Flora, FAZ UM LIVRO (e não é de cozinha)!

João Paulo Cardoso disse...

Madalena:

Se não tiver imaginação para mais (duvido... esta cabeça está sempre a latejar...), pode ser que, pelo menos, reúna alguna devaneios do "Eldorado" e publique em livro.

"Eldorado - O Livro"
(não me parece nada mal, de facto...)

Beijos.

Susana disse...

Achas que se me agarrar a essas entidades, também pode correr bem comigo? Não sei se arrisque, é que para mim a cozinha é um bicho de sete cabeças. ODEIO...
Se fosse arquitecta esquecia-me, de certeza, que as casas precisam de uma cozinha...

Sabes? Acho que vou mesmo agarrar-me aos teus santos, é que o meu tem sido o caldo Knorr e parece que ele não quer nada comigo. Santa Rita de Cássia então, não é?

Um beijo

João Paulo Cardoso disse...

Não se pode dizer que goste muito de cozinhar, mas que isso está a mudar, lá isso está.

Ainda ontem experimentei dois ovinhos mexidos que foram comidos como se não houvesse amanhã.

Cozinhar, conduzir, saber nadar...
Tudo coisas que podem ser necessárias a determinado momento da nossa vida.
Mais vale saber fazê-las.

E, como para mim a idade não é limite, se tiver a saúde comigo, quero fazer muito mais coisas.
Esse é o caminho para o Eldorado.

Voltando à cozinha:

Vai com calma, experimenta sem pressões de qualquer espécie, põe uma musiquinha a tocar, segue as instruções, relaxa e vais ver que tudo corre bem.

Se não... tenta no dia a seguir.

Beijos.

Anónimo disse...

Quando estiveres pronto para o famoso strogonoff de camarao, apita :)

nf

João Paulo Cardoso disse...

Null Fame:

Tenho muito que refogar até chegar aos meandros da tua arte culinária.
Pelo menos a fama precede-te...

Mas enquanto não queimar os delicados dedinhos que escrevem estas parvoíces e a cozinha não for pelos ares, vou continuar a tentar...

Ora... deixa cá ver...
"Pataniscas de bacalhau".
Como é que faz isto?...

Ah, pois...

N.M disse...

Eu também não sou la grande espingarda na cozinha!!!!Desenrasco-me
Tu vais ver que ainda vais sair um grande chefe de cozinha!!!