31 agosto 2007

Cocktails de Verão - Mojito

152


7. Mojito


Origem: A mistura de hortelã com bebidas é muito antiga. O Mojito terá sido criado no mar-alto, por um marinheiro inglês. De resto, a história da origem da bebida era mesmo contada por Ernest Hemingway nos bares cubanos.
Não é a primeira vez que Hemingway aparece citado nestas fichas de cocktails clássicos, o que significa que, se um dia quiser valer tanto na escrita como um pelo do bigode do famoso escritor, tenho que começar a emborcar todos as mistelas alcoólicas que existam neste mundo. Adiante.
Pois parece que o almirante Francis Drake, o primeiro homem branco a chegar a inúmeras ilhas do Pacífico, apaixonado pelos aromas da hortelã, teria sido o primeiro a misturar a palnta com boas doses de rum.
E o bebedolas ainda se desculpava com as propriedades apregoadamente terapêuticas do preparado, nomeadamente em relação aos problemas estomacias e respiratórios tão comuns nas travessias marítimas. Ele há cada um!
Mas a bebida, tal como é servida nos dias de hoje, para quem não cai na banalidade de pedir uma imperial, foi criada no célebre La bodeguita del Medio, em Havana, um dos bares mais famosos em todo o mundo...
É o cocktail ideal para os dias quentes.
Se adivinhar quais são neste Verão... meio bêbedo.


Ingredientes: Uma dose de rum branco
Um pouco de sumo de limão
Uma colher de chá de acúcar
Club Soda
Quatro folhas frescas de hortelã


Modo de Preparação: Diz aqui para utilizar um copo longo, colocar as folhas de hortelã, o acúcar e, com um pilão, pressionar levemente.
Acrescente o rum, o sumo de limão, muito gelo picado e mexa bem.
Complete com Club Soda e decore com um ramo de hortelã.

Atenção: A autoridade para a consciência ética e moral do "Eldorado" adverte que se beber, não deve conduzir, mesmo que seja o espírito do próprio Hemingway. Mais, adverte ainda, que beber para esquecer, pode levar a que... a que... esqueci-me!




30 agosto 2007

Persuasão

151

Hoje, ao princípio da tarde, percebi que estava de volta.
Os olhos perderam brilho. Os lábios retesaram-se ilustrando frustração. E todo o rosto adquiriu uma inexpressividade ao mesmo tempo estudada e genuína.
Então, a senhora do pronto-a-comer descodificou o grito silencioso de injustiça que me corria na alma e o ronco ruidoso do estômago guloso dos esfomeados de ocasião.

Voltou atrás, sabendo que a espreitava pelo canto do olho, enquanto aguardava na fila para a caixa de pagamento, e juntou uma segunda espetada ao prato encomendado.
Espetadas de porco, com batatas fritas e arroz de tomate e pimento.

Intervalo nas experiências gastronómicas que ainda não mandaram a cozinha pelos ares, mas catapultaram a auto-estima nesta área, para bem perto das estrelas.
Não são ainda as estrelas do Guia Michelin, mas também não me parece que vá a tempo de ser Chef de luxo no Gambrinus, no Eleven, na tasca aqui da rua, ou no catalão El Bulli, onde os comensais têm que marcar mesa com meses de antecedência.

Mas já vou cozinhando o básico: Ovos mexidos, bifes com arroz, esparguete ou batatas fritas, arroz de atum, com filetes, etc.
Só que às vezes rendo-me ao facilitismo, à preguiça, à gula, pagos a singelos 3 euros e 30 cêntimos, no pronto-a-comer Mariana, do outro lado da ponte.
Normalmente servem bem, mas hoje aconteceu a história das espetadas.

Fiquei frustrado com uma única e singela espetada, depositada com desdém em cima de um tapete bem mais substancial de arroz e batatas fritas.
E fiz aquele ar triste e desanimado que fazia derreter professoras há muitos anos atrás.
Muitas das minhas notas foram inflacionadas à conta desse ar de menino perdido que, juntamente com uma indómita força de vontade, pareciam levar-me ao colo rumo a um destino de sucessos anunciados em oráculo de confiança.
Algo que se transviou entretanto.

Mas quando vi a senhora do pronto-a-comer voltar atrás, marioneta do meu charme de cachorrinho perdido, persuadida por um dos truques do passado, oferecendo-me, à sucapa, mais um belo naco de carne para que eu saísse dali abanando a cauda alegremente, lati interiormente com satisfação.
Estou de volta.

21 agosto 2007

La Rentrée

150

Então, olá de novo!

Como estão? Como vão de saúdinha, de amores e desamores?

Eu?! Não têm nada a ver com isso e só por aqui se vê que este é um blog diferente, mais interessado em bisbilhotar a vida dos outros do que relatar a própria...



Confesso que ainda estou em período de férias, mesmo que na recta final, mas como já tinha marcado a rentrée do "Eldorado" para este dia, cá estou em computador emprestado pela Rede Pública de Bibliotecas Nacionais, para escrever e doar ao mundo a mais abjecta verborreia sobre coisa nenhuma.

Sobre coisa nenhuma, mas dividida em rubricas.



El Gramado

A primeira novidade da nova época. Um comentário estúpido e sem nexo sobre o mundo do futebol. Como, por exacerbado sado-masoquismo sempre desejei ser processado por agentes futebolísticos, pode ser que seja desta.

Já me estou a ver em tribunal, acossado pelos advogados de Luís Filipe Vieira ou Pinto da Costa, porque do outro tipo alto e espadaúdo que preside aos destinos do Sporting, só tenho a dizer bem. Por enquanto.

Menina não entra? Entra sim, e pode ler, porque prometo não abusar do futebolês, seja lá o que isso for.



Quinta das Anedotas

Espaço já habitual aqui na casa que vai continuar pelo menos até me fartar, o que não há-de faltar muito.
Anedotas seleccionadas que proporcionam entre três a cinco minutos de boa disposição.

Não sei se rir é o melhor remédio, mas pelo menos a bula tem indicações terapêuticas pretensiosas, não é?



Cocktails de Verão

Publicação da origem e modo de preparação de cocktails clássicos.

Uma taberna virtual que é autêntico serviço público, a menos que uma operação stop da brigada de trânsito o apanhe embriagado. Nesse caso, não o conheço de lado nenhum.

O lema aqui da casa poderia ser: Posts amigos para quem quer ser amigo de postes.
Perceberam, sucedâneos do Vasco Santana?


Gira-discos

Uma vez por semana, viagem ao passado da pop, para fazer renascer aqueles hits orelhudos que se cantavam nos anos 80 ou por aí perto.
Tudo isto se puder continuar a surripiar vídeos do Youtube, claro.
Que os administradores Youtubeiros sejam cegos, surdos e mudos.


Johnnie Walker

Outra das novidades da saison.
Depois dos "Postais Caramelos", resolvi deixar o Pinhal Novo e visitar as terrinhas caramelas aqui perto. E depois, o mundo!!!
Sorry, foi um devaneio à Lex Luthor.

Não esperem um guia de viagens.
Vou ser politicamente incorrecto, racista, preconceituoso e absolutamente desagradável para os moradores de cada lugarejo.

O objectivo é ser expulso à pedrada de cada terreola.
Cá está: Sado-masoquismo.
Talves seja melhor procurar um psiquiatra...

****************

E pronto.
Estas são as novidades da rentrée do "Eldorado".

Não esquecendo que vou continuar a escrever sobre mim, sobre o que me acontece, sobre o que me aborrece, ou sobre um ou dois pares de meias que têm de ser cosidas.

É natural que não venha a encontrar posts todos os dias, pelo menos nesta fase reinicial.
Como disse lá em cima, ainda estou de férias.

É também natural, que o que venha a escrever, não tenha a graça de há algum tempo atrás.
Estou ainda enferrujado.
Nada que umas massagens tailandesas não resolvam.

Até breve e, como este é o número 150, aqui fica um link para um site 100% português, cheio de estilo e savoir-faire.
(nota-se claramente o acréscimo do uso de estrangeirismos neste blog...).

Serve para aumentar a auto-estima lusitana.
Aqui vai ele e até à próxima.

08 agosto 2007

Regresso ao Passado - Velha Infância, parte 2

149

Foram quase seis anos e meio de mimos e descobertas, longe, bem longe de qualquer tipo de responsabilidade, a não ser ter de dormir à noite e de comer à hora das refeições.
Até que chegou o primeiro dia de aulas, num qualquer dia do Outubro de 1977.

"Mamãe" levou-me pela mão, para que, logo no primeiro dia, não fosse atropelado pelo trânsito da Estrada Nacional que ainda hoje esquarteja a vila de Pinhal Novo bem a meio.
Na verdade, não havia tanto trânsito como hoje e, sendo a minha terrinha a capital da nação caramela, eram comuns as passagens de carroças puxadas por bestas acicatadas por moscas varejeiras.

E havia a carroça do homem que vendia azeite, a do homem que vendia pão, outra para a venda de leite e, não fosse Portugal, desde sempre, um país de mentalidade pouco audaz, por assim dizer, haveria também carroças com meninas nuas professando as delícias pecaminosas daquela que dizem ser "a mais velha profissão do mundo".
Nudez só mesmo a dos equídeos entregues a uma precariedade laboral jamais defendida pelos sindicatos do sector...
Adiante.

Além de "mamãe", de mão apertada na minha, seguia também a vizinha do rés-de-chão direito, com a sua filhota, que chorava baba, ranho e outras viscosidades não identificadas, abominando a ideia de se separar da asa da progenitora para se lançar num covil de outras como ela.
A miúda de então, assim que entrou celerada na adolescência, espigou desmesuradamente, ao ponto de passar a ser conhecida por "girafa".
Posso vos dizer que o tempo não lhe trouxe qualquer predilecção pelas folhas mais tenrinhas das copas das árvores, mas ela própria já foi comida uma série de vezes, facto comprovado pela descendência que a acompanha na lida de mulher adulta.
Adiante. Outra vez.

Eu não chorava. Pelo contrário invadia-me uma espécie de felicidade sem fundamento, como se tivesse sido criado por uma família hippie habituada a baforar círculos e círculos de marijuana.
Ria.
Ria-me como um perdido por ter-me achado entre iguais. Crianças ávidas de conhecimento, de convívio, e de pancada.

Logo no primeiro dia participei numa espécie de Intifada, com calhaus escolhidos a dedo e alvos bem medidos a olho, porque naquele tempo ainda a miopia não tinha encetado o 'ménage à trois' com as meninas dos meus olhos.
E foi assim que parti a cana do nariz a um rapazito que, salvo arrefecimento da memória, se chamava Hugo.
Era a primeira vez que via sangue fora da televisão e não dava para mudar de canal.

Então dei sebo às canelas até que, cinco minutos depois, já era procurado em todos os cantos pelo Hugo e por um gang infantil às sua ordens.
Mais tarde desfiz-me em desculpas e promessas de dispensar à raiva e gula dos meus pioneiros inimigos, as primeiras 50 merendas dos meus primeiros 50 recreios.

E por falar em números, foi aqui que comecei a elaborar o sempre actualizado ' ranking' das mulheres mais bonitas, no caso, das meninas mais bonitas da turma.
Eram quatro.
Duas louras, uma morena e uma ruiva que reencontrei no ano passado.
Meninas de admirar, de trocar palavras, de brincar inocentemente, porque a fase de beijos e apalpões ainda vinha longe.
De facto, o melhor da marmelada vivia ainda na zona de Oeiras e não posso dizer mais.

E o tempo correu. Voou. Esfumou-se.
Hoje, a decência e o bom senso que mataram o Peter Pan impedem-me de fazer rankings de meninas, de lançar pedras à cara de meninos e até de rir como um perdido.
Mas não faz mal. Cada coisa a seu tempo.

Ficam as memórias de uma doce e velha infância.
E uma lágrima a correr livre pelo rosto sardento.
É capaz de ser o ar condicionado a devorar as lentes de contacto.
Sim, é isso.



NOTA

Com a publicação do díptico "Regresso ao Passado - Velha Infância", "O Eldorado" despede-se de todos os seus amigos, para umas merecidas férias longe dos computadores.

Promete-se para a 'rentrée' um revigorado 'refresh', com novas rubricas e, pretensiosamente, o mesmo humor de sempre. Voltamos a 24 de Agosto com o especial nº 150 e as novidades para a estação Outono/Inverno.

P.S: Leia em baixo o post "Regresso ao Passado - Velha Infância, parte 1".

07 agosto 2007

Regresso ao Passado - Velha Infância, parte 1

148


Para aqueles de vós que são tão agarrados ao computador como um mexilhão é a uma rocha, e que levam o portátil para todo o lado, seja a praia, o campo, a sacristia, ou uma casa de alterne, eis um textozito leve como uma dessas porcarias das árvores, que nos entram pelo nariz e nos fazem fungar tal qual uma top model dessas anorécticas com cabeças de vento.


Pois bem, a ideia era falar neste "Regresso ao Passado" da minha infância, mas parece que isso representa mais do que um regresso ao passado. Seria mais correcto escrever isto a meias com um paleontólogo, porque seria capaz de jurar que ainda cheguei a conhecer dois ou três dinossauros. Ai não, espera... isso eram os vizinhos que moravam no 1º andar.


As memórias de infância diluem-se mais depressa que meia dúzia de moedas numa slot machine e temo que o Alzheimer esteja já a minar-me o corpo. Por onde o bicho do esquecimento entrou, não faço ideia, mas espero que esteja longe do meu melhor hemisfério cerebral que é o do lado esquerdo, correpondente à linguagem.


Lembro-me que era uma criança extraordinariamente calma.
Ou vá lá, estática.
Mortiça, pronto.

Consta que podiam regar-me com gasolina e oferecer-me uma tocha que não acontecia nada.

Passava os dias sentado, a brincar com molas de roupa, não me perguntem porquê. Sei que não se cumpriu a profecia de vir a ser dono de uma lavandaria, embora tenha enorme capacidade para sujar roupa.
Também passava o dia a escrevinhar livros, documentos, paredes e testas de familiares.
E gastava também muito tempo a afagar carinhosamente os meus genitais, mas não quero aprofundar esta questão.


Entre as tropelias que fizeram história, a da "Meia Dúzia" talvez seja a mais clássica.

Conta-se em três tempos.


1. Quiçá a pensar na elaboração de mais um dos seus doces conventuais, "vovó Catarina" comprou farinha, açúcar e meia dúzia de ovos. Como o saco se tornara pesado para a sua espinal medula, colocou o saco com os víveres em cima da mesa e foi à sua vida.
Então, assegurando-me antes ao espelho que não era felino e que por isso a curiosidade não me matava, resolvi espreitar para dentro do tal saco, par ver se havia guloseimas.
E tanto mexi que parti um dos ovos.
Pânico! Drama! Horror!
Deu-se então um choque entre neurónios em contra-mão, que comprovou, pela primeira vez, o grave caso de esquizofrenia que me afecta desde sempre.

2. Como disfarçar um ovo partido? Com cola? Comendo-o mesmo cru? Fingindo ser uma galinha desvairada em busca dos progenitores perdidos?
Nannnnn....
Agarrando em toda a caixa e despejando os cinco ovos inteiros e o outro partido no quintal da senhoria, a D. Olívia, que assistiu em vida ao milagre da chuva de ovos moles, 300 e tal quilómetros a sul de Aveiro.
Desculpando em homem o puto de então, devo dizer que a teoria era a de fazer desaparecer todos os ovos, dando a impressão que não foram, de todo, comprados.
Só que esparramados entre dálias e margaridas e disputados por uma dezena de galináceos espalhafatosos, os ovos (ou o que restavam deles) chamaram mais a tenção que os últimos episódios de "Gabriela" que então paravam o país.

3. Descoberto o fraco embuste, uma assembleia de adultos teve lugar na cozinha da "vovó", encostando a oposição contra a parede. Sendo o único vereador representante da minha bancada, argumentava debilmente, inventando mil e uma mentiras de pernas mais curtas que as das galinhas que se ouviam ainda a cacarejar ruidosamente no piso térreo.
A história termina com o meu pequeno traseiro de então, bem vermelho, depois umas chineladas bem aplicadas.
E nesta altura ainda não existia o psiquiatra bonzinho da SIC para defender a criatividade de uma criança, adepta de ovos voadores...



NOTA

Com a publicação do díptico "Regresso ao Passado - Velha Infância", "O Eldorado" despede-se de todos os seus amigos, para umas merecidas férias longe dos computadores.
Promete-se para a 'rentrée' um revigorado 'refresh', com novas rubricas e, pretensiosamente, o mesmo humor de sempre.
Voltamos a 24 de Agosto com o especial nº 150 e as novidades para a estação Outono/Inverno.

P.S: Leia acima o post "Regresso ao Passado - Velha Infância, parte 2".

06 agosto 2007

Arroz com Atum

147

Aquele bloco de notas quadriculado da série Papyrus, da Ambar, andava aos caídos lá por casa.
Por vezes alguém rabiscava nele qualquer coisa, arrancava-lhe uma folha e deixava-o de novo entregue a si mesmo.
Até que peguei nele - quase 20 anos depois do que deveria ter feito com um da sua espécie -, desenhei-lhe uma frigideira fumegante e escrevi em letras toscas "First Time Cooking".
Tinha começado uma bela aventura.

Aos 36 anos não sei cozinhar.
Não será o mais terrível dos handicaps, mas era uma lacuna que tardava em ser dizimada pelo assombroso acto de coragem que representa vestir um avental, respirar fundo e rezar aos deuses para não enviar a cozinha pelos ares, para bem junto deles.

"First Time Cooking".
Arroz Branco numa página. Ovos Mexidos na página seguinte.
O bloco quadriculado tem só duas páginas, mas já é tão acarinhado por mim como a Bíblia lá de casa. E assim acontece por cinco razões:

- Por vergonha: Bolas, já estava mais que na altura de aprender a cozinhar.

- Por necessidade: Estou há 15 dias sozinho em casa e não posso estar sempre a ir comer fora, ou a trazer comida feita para casa. E preciso alimentar a barrigona.

- Por crescimento pessoal: Se muitos aprendem a cozinhar, porque não aprenderia eu?

- Por curiosidade: Depois de frustradas tentativas há alguns anos, conseguiria fazer alguma coisa comestível?

- Por amor: Motivado pela mulher que amo, tudo parece mais simples.

E foi com todo o carinho, paciência e amor da minha namorada, que numa noite de quarta-feira, seguindo as suas indicações, comecei a escrever "o livro" que jamais publicarei. Por pudor e porque é tão estúpido como um rinoceronte de mini-saia cor de rosa.
"First Time Cooking".

E chegou o dia.
Propunha-me fazer algo que uma criança de cinco anos conseguisse fazer e não me refiro a tirar macacos do nariz e a colá-los debaixo do tampo da mesa.
Arroz branco com atum.
Eu sei que para a maior parte de vós, isto é tão simples como beber um copo de água, mas para mim é algo susceptível de eriçar os pêlos das costas e causar formigueiro na planta dos pés. Por isso benzi a cozinha e chorei agarrado a uma cebola, por não ter meia dúzia de cozinheiros às minhas ordens.

As lágrimas, por causa da cebola que picava enquanto sonhava ser Maria Antonieta, acordaram-me do devaneio pantagruélico. Depois piquei um alho, cobri o fundo de um tacho com azeite, coloquei um pouquinho de sal e pus ao lume.
"Olha, até está parecido com o que tenho visto na televisão..."

As indicações seguintes falavam em deixar azeite, alho e cebola ao lume, até que esta ficasse "translúcida".
Nem branca, nem loura, nem preta.
"Translúcida".
Como medir a "translucidez" de uma cebola? Será necessário o auxílio de críticos de arte?
Perguntar-se-á à própria cebola, enquanto é a vez desta chorar, em crepitante agonia?

" - Ouve lá, peço desculpa de te estar a magoar, eu sei que 'tá a ficar um calorzinho insuportável aí dentro e não sei que mais, mas essa corzinha em ti é assim a modos que translúcida, não é? Vá lá, ajuda-me nisto! Estás translúcida ou não?"

Como quem cala consente, afoguei-a com duas canequinhas de água e coloquei em lume alto.
Lavei o arroz e, quando a água estava a ferver, juntei uma canequinha de arroz agulha.
Baixei o lume, tapei a panela, voltei a benzer a cozinha e esperei os 12, 13 minutos mais longos da minha vida na cozinha.

Estava na hora.
Imaginava o arroz mais preto que o Pelé a rebolar nu numa mina de carvão.
A cebola certamente teria se vingado, comido o fundo da panela, fugido e estaria a preparar uma revolta de frutas e legumes.
Se fosse um desses meninos gays que falam da vida social na tv, talvez até gostasse de ter bananas e courgettes a investirem militarmente sobre mim. Como não sou, tive medo e afastei a ideia de tão inusitado motim.

Levantei a panela. Ao longe soavam rufos de tambores, para alimentar o suspense enquanto eu ainda morria de fome.
"Olha! Continua parecido com aquilo que vejo na televisão!"

Pus metade do arroz num prato, juntei o conteúdo de duas latas de atum, fechei os olhos, abri a boca e provei.
"Olha, sabe bem! Quem diria?!"

Não foi das melhores refeições que comi na vida, mas tirando bifes esturricados com batatas fritas e ovos dizimados, digo, estrelados, aquela tinha sido a minha primeira experiência com os tachos.
E tinha corrido bem.
O arroz estava bom. E para a próxima ainda vai estar melhor.

Quero agradecer à minha musa inspiradora, ao arroz Cigala e às seguintes entidades:
Santa Rita de Cássia, Odin, São Cristóvão, Santa Bárbara, Maria de Lurdes Modesto, Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, Iemanjá e Nossa Senhora de Fátima.

03 agosto 2007

Cocktails de Verão - Daiquiri

146

6. Daiquiri


Origem: Existem duas versões. A primeira conta que a bebida surgiu por volta de 1900 numa mina em Santiago de Cuba, controlada pelos americanos e que se chamava, justamente Daiquiri.
Parece que o engenheiro Jennings S. Cox criou este cocktail e ofereceu-o aos mineiros, com o pretexto de que era um perfeito remédio para combater a febre amarela.
Já não se fazem patrões como antigamente. Estão a imaginar aí o chefinho aparecer com umas imperiais para o pessoal, com o pretexto que é um perfeito remédio para combater a sede? Pois...

Uma outra versão para a origem do Daiquiri, fala que os soldados cubanos que combatiam os colonizadores espanhóis, carregavam na cintura um pequeno vasilhame forrado a couro, contendo uma mistura de rum branco e sumo de limão. Chamaram-na "Elixir da Valentia".
Acho que estava na altura de recorrerem mais vezes ao elixir para expulsar os Irmãos Barbas, mas eles é que sabem...

Depois dos espanhóis, foi a vez dos americanos invadirem a ilha (o pessoal gosta de praia e forró, está visto...), entrando pela Praia de Daiquiri e logo aprovaram a mistura, adicionando, contudo, gelo picado para aliviar o calor escaldante da região. A bebida teria assim sido baptizada com o nome da região.

Facto confirmado é a celebrização do cocktail por Constantino Ribalagua, lendário barman do La Floridita, em Cuba.


Ingredientes: 2 partes de rum branco
1 parte de sumo de limão
1 colher de chá de açúcar
1 pouco de grenadine


Modo de Preparação: Coloque quatro cubos de gelo numa coqueteleira, adicione o rum, o sumo de limão, o açúcar e agite bem. Sirva num copo de cocktail, deitando no preparo um pouco de grenadine. Vai acima, vai abaixo, vai ao centro e emborque lá para dentro.


Atenção: A autoridade para a consciência ética e moral do "Eldorado" adverte que se beber, não deve conduzir, mesmo que se chame Fidel Castro. Ou Raul Castro. Ou Inês de Castro. Ou more em Castro Marim. Ou tenha mandado castrar o gato, sei lá, não me chateiem. Mais, adverte ainda, que beber para esquecer, pode levar a que se esqueça de beber. Por outro lado, se não beber, já não se esquece. Mas como o que queria era mesmo esquecer, vai ter que beber. Mas... lá está... pode levar a que se esqueça de beber e... ora, esqueça!

01 agosto 2007

Quinta das Anedotas 15

145

Especial "Estranhos Desejos"


It´s a Pig Big Love
Um pobre náufrago foi parar a uma ilha deserta, só com um cão e um porco como companhia.
Entre os três lá organizaram a vidinha. Viviam todos na mesma cabana e dividiam habitualmente as tarefas do dia-a-dia (que lindo...).
Mas, ao fim de três meses, o homem começou a ter um comportamento duvidoso com o porco.

Certa noite, voltou-se e pôs-lhe um braço por cima, mas o cão rosnou ameaçadoramente e o homem deixou-se de coisas.
A cena repetiu-se algumas vezes e o cão garantia sempre que a honra do porco se mantinha intacta.

Tempos mais tarde, ocorreu outro naufrágio que levou à ilha uma bela mulher.
A vida de todos organizou-se de modo diferente, mas todos continuavam a viver debaixo do mesmo tecto e a partilhar as tarefas domésticas (que lindo... outra vez).
Só que algum tempo depois, o homem volta a proceder de forma estranha.
Certa noite, recosta-se, boceja, estende um braço por cima da louraça e diz-lhe baixinho ao ouvido:

- Olha... importas-te de ir dar uma volta com o cão?

Tarzan e Jane
Jane, uma loura inglesa de 35 anos, em aventureiras deambulações pela selva, dá de caras com o selvagem Tarzan. Foi atracção à primeira vista. Atiçada pelos promissores prazeres da carne, esqueceu o casamento de 15 anos e foi directa ao assunto:

- Tarzan... como você faz sexo?

- Ah, isso... - respondeu Tarzan com um sorriso malandro. - Uso um buraco numa árvore!

- Mas isso é errado! Vou mostrar-lhe como se faz!

Jane tirou as roupas, deitou-se de pernas abertas e disse-lhe:

- Aqui, Tarzan. Tens que meter aqui.

Tarzan tirou a tanga, exibindo um membro descomunal (momento dedicado às meninas que leem "O Eldorado") aproximou-se da Jane e... acertou-lhe com um violentíssimo pontapé, lá mesmo no sítio.

- O... o... o que... para que foi isso? - conseguiu soluçar a Jane, contorcendo-se e rebolando-se com dores.

- Era só para ver se não tem abelhas...

Baile de Mascarados
Um sujeito de cabelo comprido, meio hippie, senta-se no autocarro ao lado de uma freira lindíssima. Sendo maior a lata e o desejo do que o respeito e a fé, pergunta-lhe se gostaria de ir para a cama com ele.
A religiosa fica escandalizada e desce na paragem seguinte.

O motorista, que ouviu o diálogo, olha para trás e cochicha com o hippie:

- Eu sei como você pode papar essa freira!

O hippie, barbudo e desgrenhado, fica curioso.

- Todas as quartas-feiras à noite ela vai ao cemitério rezar. Como você tem cabelo comprido e barba, só tem que vestir uma túnica branca e cobrir um pouco o rosto. Ela vai pensar que é Jesus Cristo... e então você ordena que ela se divirta!

O barbudo desgrenhado achou uma boa ideia e quarta-feira escondeu-se no cemitério, à espera da freira. Assim que ela chega, ele salta de trás de um túmulo e grita:

- Eu sou Jesus Cristo! Ouvi as suas preces e elas serão atendidas! Mas antes você vai ter que fazer sexo comigo!

A freira concorda, mas pede que seja sexo anal, pois quer manter o voto de castidade.
E assim que termina, o sujeito não se contém.
Tira a túnica do rosto e diz:

- Ah! Ah! Ah! Eu sou o hippie do autocarro!!

E a freira tira o véu...

- Ah! Ah! Ah! E eu sou o motorista!!


31 julho 2007

O Sapateiro e a Morte das Estrelas

144

Li qualquer coisa sobre os vultos do teatro morrerem aos três de cada vez.
Faleceram Filipe Ferrer e Henrique Viana e o sangue estancou.

Dona Morte deixou as artes de Talma e voltou-se para a Sétima Arte.

Bergman, Antonioni.
E o sangue estancou.

Ou não?
Quem desempata o jogo que ninguém quer ganhar?

Ou Dona Morte escolherá a seguir mais dois vultos de outras artes?

Ainda bem que sou um pobre sapateiro, ignorado pelas parangonas dos jornais...

Ouviu, Dona Morte?
Sou um desconhecido e reles sapateiro.
Não quero bater as botas.

Regresso ao Passado - A Sexy Gata Borralheira

143

Era um Verão quente, ainda sem laivos de tropicalismo como os do início deste milénio. Estávamos em plenos anos 80 e "papai e mamãe", acorrentados à rotina, lufa-lufa e horários escrupulosos de duas multi-nacionais que já não têm fábricas em Portugal, contrataram uma jovem empregada para fazer umas limpezas lá em casa, pelo menos uma vez por semana.

Eu tinha 14 anos e entusiasmava-me cada vez mais com decotes e rabos de saias. Só que, paradigma dos adolescentes mais introvertidos, dedicava-me muito mais a intermináveis sessões onomásticas, do que aos imponderáveis engates junto do sexo oposto.
E assim, naqueles tempos em que o sangue fervia e se concentrava todo no mesmo sítio, as terças-feiras galoparam velozmente os degraus do ranking dos melhores dias da semana.

Nas terças à tarde, ficava sozinho em casa com a jovem empregada da limpeza. Era morena, tinha olhos castanhos e um corpo cheio de curvas, tantas como a sinuosidade atrevida do seu sorriso. Temperava as palavras com pimenta e canela, consoante queria ser mais provocadora ou mais doce e meiga.
Tinha 21 anos e ia casar daí a dois meses com um trolha sortudo, que iria levar aquele espectáculo de mulher para casa. Um autêntico Festrolha para o qual não estava convidado.

Não me lembro se limpava bem ou mal, nem sequer como se chamava, mas lembro-me que a presença dela era um autêntico pau de dois bicos. Literalmente.
Isto porque, depois de tanto falar dela, tinha deixado de ser o único vulcão pronto a explodir naquela ilha dos amores. O meu jovem primo Carlitos, absolutamente imberbe nos seus 11, 12 anos, mas disposto a ganhar asas e saltar todas as etapas de uma adolescência que só lhe atrasava o desejo de ser adulto, também por ali sobrevoava a flor que se adivinhava de pólen agridoce.

Nesses doces anos, um tal de Adam Curry apresentava um saudoso Countdown nas tardes do segundo canal e por ali passavam outras tentações da época como esta loura ou esta morena. E tal como entoava um jingle de então, o calor apertava e a sede despertava. Tanto que, na minha cabeça, ideias mais ousadas fervilharam, ao mesmo tempo que, mais abaixo, valores mais altos se levantaram.

Foi então que, com o calor como aliado, convenci a sexy gata borralheira a libertar-se de alguma roupa. E ela prescindiu do avental. Sorria evocando o pecado, enquanto eu engolia em seco. Consegui ainda balbuciar qualquer coisa sobre a sua camisa de algodão, como estava ali a mais, que não viria mal ao mundo se ela se pusesse à vontade e fizesse o seu trabalho de limpeza em soutien... E ela despiu a camisa.

Ouviram-se sinos em catedrais feitas de cristal! Fadas montadas em unicórnios prateados entoaram mantras eróticos! O sol, lá fora, piscava numa palete de neons!
E, num completo desprezo pela poética das coisas, o meu pirilau mordia as calças de ganga, ameçando ser livre, serpente voraz em busca da presa!
E ela? Ela exultava embriagada pelo seu poder de sedução e estava disposta a estender a mesa de jogo até lhe faltarem as peças. E era ela a jogar...

- E agora? É melhor tirar mais alguma coisa?

Não consegui articular uma sílaba, mas os braços finalmente responderam às ordens do cérebro e levantaram-se titubeantes...
Tocaram à campainha.
Ela precipitou-se para a camisa pendurada na cadeira.

- Espera!! Deixa-me ver quem é!!

Nervoso, com o coração a mil, amaldiçoava a minha má sorte, enquanto espreitava do 3º andar lá para baixo. Era o primo, claro. Um autêntico Peninha na vida de um Donald azarado.

- É o meu primo! - gritei para dentro de casa.

E quando entrei com ele, por incrível que pareça, ela continuava a mesma visão de sonho. Uma morena de soutien negro, espanador na mão, sorriso matreiro, olhar matador.

- O que é que ela está a fazer, só de soutien? - perguntou um Carlitos de olhos arregalados.

- Ann.. então, ummmm... é porque estava calor e ...

E não havia mais nada a dizer. A imagem da bela empregada desvanecia-se como miragem, embora continuasse ali, meio despida, sorridente, à espera das próximas jogadas.
Mas não aconteceu mais nada e como estava na hora dos meus pais chegarem, ela vestiu-se.
Foi a sua última terça-feira na minha casa.
No sábado seguinte ela casou e nunca mais a vi até hoje.

27 julho 2007

Desencontro de Irmãos

142


A edição de hoje do "Diário de Notícias", a propósito do caso de fratricídio em que V. Carreira, de 17 anos, matou o irmão mais novo, Ricardo Carreira, de 12, enumera uma série de rivalidades históricas entre irmãos que acabaram sempre da pior maneira.

O "Eldorado" adiciona mais um caso em que ainda não jorrou sangue, mas que deverá estar quase, quase. Já lá vamos.
Respeitemos a ordem cronológica dos factos consumados, antes do facto que está por consumar:

???? - Abel e Caim
O mito bíblico dos filhos de Adão e Eva, é o fratricídio mais célebre da história.
Parece que Caim não quis sacrificar um animal em nome de Deus, tal como fez o irmão Abel e daí terá nascido o conflito. Caim acabou por matar Abel por inveja.
Daí a nascerem os objectores de consciência, os psicólogos e a Sociedade Protectora dos Animais foi um passo de anão.

753 a.C. - Rómulo e Remo
Também foi a inveja a separar os dois irmãos que, reza a lenda, fundaram a
cidade de Roma.
São bem conhecidas as representações iconográficas dos dois irmãos por baixo de uma bezerra, vaquinha, ou lá que bicho é aquele. Mais tarde, Quim Barreiros compôs o tema em que canta "eu quero mamar nas tetas da cabritinha"...
Rómulo, tal como Abel, terá sido beneficiado pelos deuses, criando em Remo um ciúme insuportável que levou a que matasse o irmão.

44 a.C. - Cleópatra e o seu irmão
Aquela que foi a mais famosa rainha do Egipto, dona de uma beleza incomparável, apesar do nariz à Júlio Isidro, terá mandado envenenar o irmão mais novo, Ptlomeu XIII com quem partilhava o poder, para ficar com caminho aberto para as suas diatribes.
Ptlomeu??? XIII???
Estava-se mesmo a ver que não ia longe….

1507 - Irmãos Borgia
César Bórgia foi cardeal nos tempos da Renascença (não estou a falar da rádio!!!), mas abandonou a carreira eclesiástica depois de ter morto o irmão.
A isto chama-se falta de pontos cardeais. Uma rosa dos ventos teria ajudado, mas nesta altura as camisolinhas do Benfica ainda não estavam na moda.

2007 - Carolina e Ana Maria Salgado
Carolina foi acompanhante em bares de alterne, companheira de Pinto da Costa, separou-se e escreveu um livro sobre corrupção desportiva que deverá levar Valentim Loureiro e Pinto da Costa ao banco dos réus e toda a história ao cinema.
Depois, sensacionalmente, aparece uma irmã gémea, Ana Maria, referindo que o livro foi encomendado e que grande parte do que lá vem, não corresponde à verdade.
A seguir aparece o pai das gémeas desbocadas - uma loura, outra morenas, as duas mais feias que uma lesma com lepra -, para classificar Ana Maria como uma débil mental, levando a que esta amiga aqui, classificasse tudo isto como “A Salgada Família”.

O que é que poderá suster duas irmãs gémeas desavindas?
Um Wonderbra.

Cocktails de Verão - Manhattan

141

5. Manhattan


Origem: Este cocktail que homenageia a trepidante e charmosa ilha de Nova Iorque é seco, sóbrio e elegante. Nos balcões dos bares, os experts contam que o Manhattan teria surgido mesmo nos Estados Unidos, não necessariamente na ilha, e qua a sua receita original continha apenas rye whiskey (whiskey de centeio) e vermute. Estávamos em 1870.
Daí para cá, a sua fórmula foi bastante alterada. Hoje é comum acrescentar-se gotas de Angostura e uma cereja.
Mesmo simples, a receita do Manhattan exige muito rigor de quem a prepara. Deve-se conhecer, por exemplo, as complexas consequências da maior ou menor quantidade de cada ingrediente: três, duas ou mesmo uma gota a mais de Angostura podem fazer uma amarga diferença.
Pelo seu carácter seco, o Manhattan é considerado um aperitivo, ideal para ser servido antes das refeições.

Ingredientes: 2 partes de rye whiskey
1 parte de vermute tinto
2 gotas de Angostura
1 cereja

Modo de Preparação: Num copo misturador, coloque cinco a seis cubos de gelo e todos os ingredientes, excepto a cereja. Mexa rapidamente com uma colher longa e coe a mistura para uma taça de cocktai. Decore com a cereja que deve ficar no fundo da taça.
Não coma a cereja antes de terminar de beber, porque issso vai adoçar o seu paladar.
Atenção: A autoridade para a consciência ética e moral do "Eldorado" adverte que se beber, não deve conduzir, mesmo que seja o espírito vivo de Boris Ieltsin.. Mais, adverte ainda que beber para esquecer pode levar a que falhe a porta e saia pela janela. O que pode ser perigoso, a menos que seja daqueles que leva um pára-quedas sempre consigo.

26 julho 2007

Vaidade Descarada

140

Caros amigos:

Apesar das limitações técnicas que me são impostas (com toda a legitimidade, diga-se de passagem) congratulo-me vaidosamente pelo facto de este blog estar a atravessar, paradoxalmente, a melhor fase dos seus oito meses de existência.

Quando a tasca abriu, só cá entrava um ou dois amigos de sempre, e sempre avessos a comentar.
Dois meses depois, ainda "O Eldorado" andava na ridícula cifra dos 10 visitantes diários.

Depois chegou a Miosotis, a Flora, o N.M., o Null Fame, a Madalena, a Ana e todos os outros.
A comunidade cresceu tipo bola de neve e o número de visitas cresceu com ela.
O número de cliques diários no "Eldorado" subiu para 15... 20... 30... 40... e estará agora em mais de 50 visitas diárias.

Entretanto, o post "Regresso ao Passado - Alegadamente Afogado" chegou, para já, aos 28 comentários, um recorde nesta casa.
Sim, metade dos comentários são meus e depois?
A esquizofrenia não se pega, estejam descansados...

De referir também, que o post nº 133, "Cocktails de Verão - Tequilla Sunrise", foi carinhosamente exportado para o Brasil, via Gláucia do "Gal in Blog".
Obrigado, Gláucia!

Os números são ridículos, eu sei.
Mas este é um blog completamente fora do circuito estelar composto pelos blogues do Nuno Markl, do Bruno Nogueira, do Pedro Ribeiro, ou até do Pacheco Pereira. E, por isso, acho que estes valores são mais interessantes.

Vaidade sem nexo e pueril, concordo.
Mas o maior desafio da minha vida sempre foi trabalhar a minha auto-estima. Por isso permitam-me este enamoramento pelo espelho, 'tá?

Garanto-vos que vou encontar maneira de publicar regularmente no "Eldorado".
Estou a pensar em novas rubricas, em celebrar parcerias, em afiar mais as palavras, sofisticar o humor, enfim, ideias não me faltam, porque eu quero que este blog seja tudo o que estiver destinado a ser.

Tudo farei para trazer mais gente a esta casa.
Só não recorrerei a fotografias de mulheres nuas sem relação alguma com o texto.
Não, isso não.
Seria um golpe muito baixo.

Bem, agora que parei de olhar para o meu gordo e peludo umbigo, está na hora de ir fazer o jantar.
Desculpem o calor da vaidade, sim?
De qualquer forma, para os mais acalorados, amanhã há novo Cocktail, eh, eh!

Postais Caramelos 7 - O Pinhalnovense

139

Se a grandeza de um clube de futebol puder ser aferida pela sua representação na internet, estamos conversados.
Tal como acontece com os Bombeiros Voluntários do Pinhal Novo, também não há site do Clube Desportivo Pinhalnovense para inglês ver. Ou mesmo para um caramelo ou outro espreitar.
Uma nuvem negra parece abater-se sobre a comunidade internauta do Pinhal Novo.
Mas "O Eldorado" vai continuar.
A mim ninguém me finta.


Desportivamente, também não há glórias por aí além para contar.O Pinhalnovense é quase sexagenário, completa 60 anos daqui a 10 dias e, tirando alguns títulos de divisões secundárias e dois ou três embates com clubes de renome na Taça de Portugal, não há mais nada a realçar.
E mesmo assim, nesta fase de marasmo de talentos futebolísticos na Margem Sul, o Pinhalnovense é o segundo clube mais importante do Distrito de Setúbal, logo a seguir ao sofrido Vitória.

Longe vão os tempos da glória vitoriana, barreirense e da génese de craques como Diamantino, Carlos Manuel, Manuel Fernandes, Chalana ou mesmo Futre.É como se o talento para chutar uma bola estivesse associado ao apogeu das unidades fabris de uma região. Mas como não sou sociólogo fico-me por aqui.

O "estádio" do clube cá da terra chama-se Campo Santos Jorge. Fica junto aos Bombeiros Voluntários, entre prédios de três andares e paredes meias com a Estrada Nacional. Está delimitado por um muro branco com cerca de dois metros e meio ou três de altura e é comum ver mirones nas janelas e varandas vizinhas. Tem uma só bancada, quase exclusivamente para sócios e um campo de relva sintética, quase exclusivamente para jogadores a sério, embora sejam célebres os jogos entre solteiros e casados. E os viúvos? E os divorciados? E aqueles que dão facadinhas no matrimónio?

Junto à porta principal, três janelinhas de bilheteira de cor azul evocam a memória de tempos ainda menos gloriosos.
Azul é, de resto, a cor principal do clube. Menos mal.
Os rapazes equipam de azul e branco num equipamento decalcado da indumentária do F.C. Porto. Um bocadinho pior.
Aqui ao pé, o Palmelense equipa "à Benfica" e o Alcochetense "à Sporting".
O "Montijo" equipava "à Brasil", mas este ano fechou as portas.
Acabou.
Kaput.

É patética tradição familiar tentar ser jogador do Pinhalnovense. Alguns de nós ficaram-se por uma curta experiência numa determinada pré-época dos juniores. Mas não vou estar para aqui a denunciar-me. Outros foram quase craques dos pés à cabeça. Longas melenas ao vento, bola controlada por chuteiras amestradas. Outros ainda ficaram-se por um fogacho nos juniores e houve aqueles que se limitaram a colocar cal à volta do campo, então pelado. Mas não vou estar para aqui a denunciar, respectivamente, o meu tio, o meu irmão e o meu pai.


De resto, foi nas glamourosas matinés de dança e engate na sede do clube, nos loucos anos 60, que "papai cortejou mamãe". Foi também ali que passei belas tardes e noites a jogar snooker e ping-pong.
A antiga sede, vetusto edifício pintado de bolorento e pastel azul, está hoje a cair aos pedaços.
Procuram-se novas instalações, até mesmo para um novo complexo desportivo.


O futuro de um clube de futebol, de uma carreira profissional, de um relacionamento amoroso, de qualquer coisa, faz-se pelos alicerces. Não adianta pontapear o esférico despreocupadamente, enquanto o passado naufraga e o futuro não emerge.
Mas, tal como não sou sociólogo, também não tenho pretensões de dirigismo desportivo.
Pelo menos por enquanto.

Resta-me continuar a ler as proezas dos jogadores pinhalnovenses nos jornais; ouvir os hilariantes relatos da rádio; ou até ir de quando em vez ao estádio, digo, ao Campos Santos Jorge. E um dia, quiçá como presidente do clube (estou a brincar, estou a brincar...), talvez desate a contratar Ronaldos e Ronaldinhos, a peso de ouro, só para divertir as hostes. Que se lixem os alicerces! Goooooolooooo!!!!!!!!


24 julho 2007

Regresso ao Passado - Alegadamente Afogado

138

Não sou, de todo, a pessoa mais convencional deste planeta.
Basta ler algumas das coisas que tenho escrito neste blog.
Mas a confissão, quase acto de contrição, não explica aquela tarde em que decidi enfrentar a corrente do Sado, ao largo de Tróia, "sendo salvo" por um batalhão de nadadores-salvadores.
Tudo sob o olhar de dezenas de mirones que, na praia, esperavam ansiosamente para ver chegar "o coitadinho" que quase se tinha afogado.
Foi das tardes mais humilhantes da minha vida...

Penso que esta história ocorreu no princípio dos anos 90.
Apesar de nunca ter gostado muito de praia, por levar a peito a Teoria dos Excessos (na praia há sol a mais, gente a mais, água a mais, areia a mais...), às vezes um grupo de amigos mais persuasor lá me arrastava para Tróia.
Talvez porque faltasse um para a futebolada.
Ou porque era giro ver um gajo passar de branco-lixívia a vermelho-tomate em menos de 15 minutos.
Ou talvez porque fosse divertido levar um "Woody Allen" na bagagem, capaz de divertir a maralha com a sua histriónica colecção de crises existenciais.
E então eu fui.

Estava calor a implorar por mergulhos entre as algas e alforrecas, uma das troianas imagens de marca naqueles tempos. E não demorou muito para que andasse tudo ao banho, ignorando a bandeira amarela hasteada ao pé da gigantesca bola azul que publicitava a Nívea.

Quem conhece aquelas águas, entre a Península deTróia e as praias da Arrábida, sabe que, por ali, as correntes às vezes são um caso sério.
Já ali perdi um familiar em circunstâncias macabras que não são para aqui chamadas.

Mas a malta é jovem, não mede a inusitada rebeldia dos actos que lhes alimenta o ego.
Em pouco tempo percebemos que, por mais que esbracejássemos, éramos arrastados dezenas de metros para norte. Nada que pusesse em risco a nossa integridade física.
O que acontecia era que, nadando para a praia, tínhamos que percorrer a pé, até ao local onde estavam toalhas, guardas-sóis e também aqueles que eram então já mais sensatos, ou menos corajosos, a mesma distância percorrida a cavalo nas suaves ondas da correnteza.

Ora, como o mais louco daquele grupo esgazeado, fui o último a abandonar as águas tão revoltas como o mais mortífero dos rápidos. Pronto, estou a exagerar.
Mas era uma correnteza tão veloz como os dirigentes desportivos a fugir da justiça. Era uma corrente moderada, vá lá.
Era uma correntezinha.

Às tantas, estava tão cansado de nadar contra a corrente, a 100 metros do ponto de partida, mas sempre a poucos da orla da praia, esbracejando inutilmente, que tive vontade de deixar-me ir na corrente.
Podia ser que fosse levado até Setúbal, onde retemperaria as forças com uma petiscada de choco frito.

E quando já estava farto da brincadeira parva e predispunha-me a nadar para a praia, aconteceu.

Três nadadores-salvadores, dois gajos e uma tipa, tinham-se lançado à água e nadavam vigorosamente na minha direcção. Continuei a nadar contra a corrente, ao mesmo tempo que pensava: "Como é que vou explicar que não me estou a afogar e que sou só um parvo a nadar contra a corrente?"

Já bem perto, o nadador-salvador mais lesto a chegar perto de mim, que nunca cheguei a concluir se era um excelente profissional ou um entusiasta da série "Marés Vivas" que fazia sucesso por aqueles dias, levantou a voz para ter a certeza de que toda a praia o ouvia e disse-me:

- Já chegámos! Tenha calma, não entre em pânico! Não se canse a esbracejar! Vamos já salvá-lo!

"Salvar-me?! Do quê?! Queres ver que há por aqui tubarões?"

- Annn... eu... eu... eu estou bem. Estava só a... a... a fazer exercício...

"A fazer exercício?! Não podia ter pensado em nada melhor?!"

- Não se canse a falar! Tenha calma!! Estou a chegar até si!

- Mas eu não estou a afogar-me! Posso nadar para a praia quando quiser! Veja!

E lá saí da corrente, passando pelo nadador estupefacto que, durante aquele humilhante regresso às areias douradas daquela praia apinhada de mirones, afogou-se num redemoinho de repreensões e descomposturas que me fizeram desejar ser um tubarão para lhe arrancar uma perna.

Escoltado pelos nadadores-salvadores, avermelhado dos pés à cabeça por culpa do sol e da humilhação cheguei à praia onde os mirones cogitavam, teciam teorias, como empenhadas tarântulas costuram as suas teias. Esperavam um náufrago a espumar-se da boca, com direito a reanimações boca-a-boca, quiçá a sempre espectacular aparição de uma ambulância.

Saíu-lhes uma envergonhada fraca figura, ainda assim capaz de se afastar pelos seus próprios pés, cabeça baixa na desesperada demanda por um buraco na areia onde se pudesse enfiar.

De regresso ao seio do grupo, as palmadinhas nas costas queimavam mais por culpa do escárnio incandescente dos meus "amigos" do que por culpa do escaldão.
Ninguém acreditava que eu não tivesse, efectivamente, passado por dificuldades.
Resta-me encontrar "um certo e determinado" golfinho, com quem brinquei durante aqueles patéticos minutos, na correnteza.
Ele pode corroborar que eu só estava a divertir-me.

21 julho 2007

Desinfestação

137

Caros leitores:

A gerência do "Eldorado" vem, por este meio, apresentar um pedido de desculpas a todos os leitores e bebedolas que procuram este blog, em especial às sextas-feiras, dia de cocktails.

Acontece que, sem que nada o prevesse, o "Eldorado" recebeu a visita da ASAE e, pelo menos por uns dias, e porque foram detectados vírus informáticos atrás do bar, vamos ter que fechar.

De igual forma vai ser interrompido o nosso serviço de mesas, onde servimos anedotas, textos parvos, episódios do passado entre outros devaneios.

Se a desinfestação correr conforme o previsto, estaremos de volta na segunda-feira.
Caso contrário, regressaremos na terça.

Uma vez mais, o nosso pedido de desculpas.
Aproveitem este interregno para ir empinar papagaios para a praia ou molestar velhinhas com colheres de sobremesa.

Gratos pela vossa compreensão,

Pela gerência do "Eldorado"

João Paulo Cardoso

19 julho 2007

Quinta das Anedotas 14

136

Um dia no circo

O domador de leões estava a fazer o seu número, com o profissionalismo de sempre.
Orgulhava-se de ser bom naquilo que fazia, os animais tinham-lhe respeito, e...
De súbito, um dos leões, farto de trabalhar precariamente (não acontece a todos?) rugiu à maneira de Ipiranga e lançou-se ao público!
O drama... a tragédia... o horror...
As pessoas começaram a fugir, umas correndo para um lado, outras para o outro... e, enquanto isso, um aleijadinho numa cadeira de rodas, tentava desesperadamente sair dali.
Algumas pessoas, enquanto fugiam, viram a cena, e gritaram:

- Olha o aleijado! Olha o aleijado!

E o rapaz, confinado a uma cadeira de rodas e a um pânico que paralisava já o resto do corpo, girava, girava, girava (já estou tonto...) na cadeira, mas não ia a lado nenhum. E as pessoas, com o leão a rugir pelo meio delas, continuavam a gritar:

- Olha o aleijado! Olha o aleijado!

Então, o rapaz, enervado com tudo aquilo, gritou:

- PÔRRA!!! IMPORTAM-SE QUE SEJA O LEÃO A ESCOLHER??!!


Solidariedade

Ocorreu um gigantesco terramoto na Ucrânia: Morreram 3.000 pessoas.
Os Estados Unidos enviam ajuda médica: 300 médicos e enfermeiros.
A Inglaterra envia ajuda para busca e salvamento: 150 militares com cães treinados.
Portugal envia 3.000 ucranianos para repor o stock.


Bóbell

Martim e Vanessa namoravam há pouco mais de um mês, mas já achavam que seria para toda a vida. Numa noite, pródiga em ousadias, Martim acompanha a namorada a casa.
Quando chegam à porta da casa dela, o jovem, completamente excitado, apoia-se com uma mão na parede, impedindo que a rapariga passe...

- Antes de ires, porque não me fazes uma mamada, meu amor?

- O quê??!! Estás louco???!!!

- É rapidinho... não há problema...

- Não sejas parvo! Pode aparecer alguém!!

- É rapidinho!! A esta hora não aparece ninguém, vá lá!!

- Não!!

- Só uma mamada, amor!! Eu sei que também gostas!

- NÃO!! PÁRA!! Estás louco!!

- Vá lá!! Não sejas assim!!

Nesse momento, aparece a irmã da garota, em camisa de dormir, olheiras fundas, caída de sono.
Volta-se para a irmã e diz:

- O pai mandou-te chupar o Martim... ou que eu chupasse... ou ele mesmo vem chupar, mas pelo amor de Deus, ele que tire a mão da campainha!!!

17 julho 2007

Excursões e eleições

135

FACTO:


Um meio atarantado José Manuel Mestre, repórter da SIC, fica estupefacto com as declarações dos populares que encontra a festejar a vitória de António Costa, nas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa.
Basicamente, ninguém era de Lisboa, e sim pertencentes "ao resto da paisagem". Gente que regressava de excursões e que tinham sido "convidados" pelo PS, para aparecer por ali, a fazer número de circo. Muitos deles não conhecia Costa de parte alguma, mas já que a excursãozinha terminava com festa e petiscos... porque não?


FICÇÃO:


Agosto de 2031, Anno Domini

Cansado de uma viagem às ruínas de Conimbriga, olhos meio adormecidos atrás de uns óculos de fundo garrafal, vejo a paisagem desfilar em fotogramas desconexos, enquanto clamo pela hora de chegar a casa.

Tenho 60 anos, uma vida inteira a encurvar-me o corpo e a secar-me a alma.
O passeiozinho com os amigos do lar foi jeitoso, mas só isso.

O senhor do Centro Social, que começa sempre as frases com "de modos que", aparece no monitor de LCD, apenso nas costas do banco à minha frente.
Pergunta, numa voz distorcida pela má ligação, se gostámos da viagem e etc. e tal.
Fala muito e esbraceja muito mais. Se isto fosse o Pictionary apostava que estava a imitar uma mosca...

Uma lágrima escorre-me pelo rosto cultivado de rugas, terra estéril carente de afectos.
"Já tive aquela idade", balbucio sem emitir um som.

Procuro concentrar-me, no que o sarapitola está a dizer.

- De modos que, na volta, vamos ainda passar por Lisboa. Eu sei que não estava no programa, mas houve uma importante votação na Feira do Erotismo, de modos que vamos passar por lá, para fazer número, digo, para festejar a vitória da Cindy Mamalhuda, 'tá bem?

E de repente, cansaço, lágrimas e tristezas se desvanecem!
Nada como uma festarola com direito a mamas, croquetes e vinho tinto!

- A modos que vamos lá então, cambada! - grito com o que me resta dos pulmões, até saltar a placa.

Regresso ao Passado - Calientes de Contacto

134

Cada passo dado pelo corredor fora era uma injecção de confiança.
Redescobria rostos que antes eram difusos; apreciava as minudências das paredes, do chão, do tecto; contabilizava os números das salas, pendurados no topo das portas; e avistei, lá bem ao fundo, o André, o Pedro, a simpática Edite e todos os outros.
Sorri. Naquele dia estava a estrear os meus olhos novos.

Sou monstruosamente míope e não faço ideia porquê.
Não tenho ninguém, na família próxima, que carregue consigo um handicap de seis dioptrias em cada olho. E, no entanto, a miopia atropelou-me, galopante, aos 17 anos de idade e, durante muito tempo, fingi que continuava na plena posse das minhas faculdades visuais, só porque achava que um tipo de pele leitosa, tímido e sardento, ainda mais estranho ficaria de óculos.
Na verdade, o que perpassava pela minha mente não era o impacto estético que poderia causar nos outros. Era sim, não hipotecar as poucas hipóteses que restavam com as outras, as miúdas.

E assim, durante mais de meia dúzia de anos, interpretei, na perfeição, a personagem de Mr. Magoo enquanto jovem, com as merecidas consequências.

Nas amizades que acenavam ao longe, fui dando passos atrás: Muitos pensaram que tinha deixado de lhes falar, mas não, só tinha deixado de os ver.
Outros buzinavam, quando passavam por mim de carro, e eu acenava atabalhoadamente gritando para aqueles simpáticos vultos "Olha! O... o... coiso!"

Na secundária, fui dando passos em frente, literalmente: As últimas carteiras não me deixavam ver o quadro e, por isso, fui avançando, até que um dia nada mais restava à minha frente a não ser a ardósia e os professores. E, olha... a professora de Geografia afinal era um gajo! Bolas! E eu que tinha uma paixão por aquela professora...

E à noite, uma simples ida à saudosa esplanada do Pátio da Vila, era um tormento.
Praticamente tinha que vasculhar de perto todas as mesas, à procura do meu grupo.
Pior: cada vez era mais difícil descobrir no meio daquela confusão, a menina que amava quase platonicamente. Felizmente, ela e a turminha dela tinham lugar fixo.

Assim, relembro com um sorriso condescendente, aquele mês de Abril de 1995 e o dia em que vi a Universidade Autónoma de Lisboa com um novo olhar, proporcionado por um par de lentes de contacto, uma das maiores invenções do passado século.

Foram dias extraordinários, calientes de contacto, porque tudo parecia agora redesenhado pela mão firme de Deus.
As figuras esbatidas ganhavam contornos definidos, uma tarde na Biblioteca Nacional revelou-se um dos primeiros banquetes para os olhos e, acima de tudo, já podia desviar-me melhor do trânsito enlouquecido (ou dos enlouquecidos no trânsito), dos buracos, do lixo das ruas, e da caca dos pombos e dos bobis. Nem tudo são maravilhas.

Que Deus me conceda a dádiva da visão por muitos e bons anos.
Acima de tudo não quero deixar de ver quem mais amo: a minha mãe, o meu pai, o meu irmão, o meu sobrinho e a minha princesa.
Olhos que não veem, coração que não sente? O tanas!
Saudade é uma palavra que cega e mata de amor.

13 julho 2007

Cocktails de Verão - Tequilla Sunrise

133


4. Tequilla Sunrise


Origem:
Por incrível que pareça, a autoria desta bebida é creditada a Mick Jagger, líder carismático de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, os Rolling Stones.
Jagger nunca trabalhou como barman, mas digamos que ele e as bebidas sempre foram grandes amigos. Um líder de uma banda viciado em álcool? Surpreendente.
No final dos anos 70, durante uma tournée pelos Estados Unidos, Mick Jagger foi proibido de ingerir bebidas alcoólicas pelo médico que acompanhava a banda. O cantor britânico não se conformou e inventou uma forma de enganar o médico e até o guitarrista Keith Richards, que passava a vida a gozar com tudo aquilo, bebendo doses e doses de vodka, mesmo na cara dele.
Jagger passou a misturar sumo de laranja com tequilla, dando a impressão que não bebia mais do que exóticos sumos de fruta. A burla só foi revelada no final da temporada e sempre com o cantor de boa saúde.
Mais tarde, o cocktail foi aperfeiçoado com a adição de grenadine.


Ingredientes: 2 partes de tequilla
4 partes de sumo de laranja
grenadine
uma laranja
duas cerejas

Preparação: Num copo bem longo, coloque três ou quatro cubos de gelo. Depois misture a tequilla e o sumo de laranja. Acrescente algumas gotas de grenadine, sem mexer mais.
Decore com uma fatia de laranja e duas cerejas.
Agora já pode sair por aí meio bêbedo a cantar "I can get no satisfaction"


Atenção: A autoridade para a consciência ética e moral do "Eldorado" adverte que se beber, não deve conduzir, mesmo que se chame Jorge Palma. Mais, adverte ainda que beber para esquecer pode levar a que decida mijar atrás do balcão do bar, pensando que é ali a casa-de-banho. O que pode ser fatal se for noite de farra do pessoal da ASAE.

POR MANIFESTA INCOMPETÊNCIA, HÁ EM BAIXO DESTE "COCKTAIL DE VERÃO", UM TEXTO NOVINHO EM FOLHA, QUE DEVERIA TER SIDO PUBLICADO MAIS ACIMA.
CHAMA-SE "FRIDAY 13TH - O ATAQUE DAS TARTARUGAS DENTUÇAS".
MUITO OBRIGADO PELA VOSSA COMPREENSÃO.